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Arte e Design Entrevista

Entre moda e arte: à conversa com José Wong

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Em janeiro do ano passado – quando éramos felizes e não sabíamos – tivemos o prazer de ir à Paris Fashion Week. Entre desfiles, festas e showrooms acabamos por nos cruzar com muitas pessoas interessantes, entre elas o artista chinês José Wong.

O seu nome pode não vos ser familiar mas a probabilidade de já se terem deparado com o trabalho dele no Instagram de celebridades, páginas de youth culture ou videoclips é bastante alta. Apesar da sua tenra idade, José conta já com pop ups em Tóquio, Milão e Paris, e o seu toque de Midas estende-se desde as paredes aos guarda-roupas de artistas e rappers de primeira linha.

Em visita à sua exibição tivemos esta conversa informal, motivada por pura admiração e curiosidade, que nos lembrámos de transformar numa pequena entrevista, na esperança de que esta possa servir de inspiração à nova geração de artistas e revelar alguns detalhes por trás do sucesso precoce de Wong.


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Para quem não te conhece, podes apresentar-te? Chamo-me José Wong e sou um designer com muitas ideias engraçadas.

Podes falar-nos um pouco do meio em que cresceste? Nasci numa família com uma inclinação artística, e vivi principalmente entre a China e França. Os meus pais sempre me apoiaram, desde miúdo que nunca interferiram com os meus interesses e a liberdade foi sempre a tónica do meu crescimento, o que naturalmente ajuda a desenvolver um espaço criativo próprio.

Como é que chegaste à arte e à moda? Em miúdo gostava muito de pintar, mas nunca me interessei muito por uma educação artística formal. Foi só quando o Edison Chen começou a explorar a esfera da arte nos seus designs de moda que me apercebi como os dois mundos podiam ser integrados e inspirar-se mutuamente.

Como é que está a correr a universidade? O que é que os teus colegas e professores acham do teu trabalho e do teu lifestyle? Tenho tido uma boa experiência na minha escola, encontrei o meu estilo próprio e os meus professores apoiam o meu trabalho. Às vezes eles até reparam em coisas mais inusitadas, que estão em linha com o que eu faço e que acham que me podem servir de inspiração, e chamam-me logo. É bom sinal, acho, significa que tenho um estilo reconhecível.

Como é que definirias a tua arte em duas ou três palavras? Diria que é divertida e criativa.

Qual foi a primeira peça que assinaste? Ah, já fiz demasiadas coisas… A primeira deve ter sido uma t-shirt CLOT x KAWS, e por volta da mesma altura uma camisa japonesa, pelo menos acho que são esses que considero os meus primeiros trabalhos. Na altura já vinha a explorar o meu estilo, e comecei a ficar confortável a criar em nome próprio. Depois fui estabelecendo as pontes entre o mundo digital e a vida real, mas foi tudo muito acidental. Quando fiz a minha primeira colaboração com a Doublet, uma marca japonesa, achei que podia surpreender com o uso das capas e discos de videojogos. Descobri que podiam ser um meio para expressar as minhas ideias na moda, e também comecei a explorar o design gráfico, e foi assim que cheguei ao primeiro game disc Starwalk.


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Qual foi o teu projeto favorito até agora? O meu projeto favorito é sempre o próximo.

Quem foram e são as tuas principais influências? Edison Chen, legend 5 ever.

Já tiveste uma pop up na Nubian e colaborações com grandes figuras no Japão, como é que entraste na cena de Tóquio? Eu vou a Tóquio pelo menos uma ou duas vezes por ano, e fui fazendo muitos amigos. Também conheci outros japoneses na Paris Fashion Week, e esse círculo foi crescendo. A cultura japonesa teve sempre um grande impacto no meu crescimento, por isso há uma coerência, as nossas ideias encaixam sempre bem.

E quais é que te parecem ser as grandes diferenças entre a cena artística e de moda na Ásia e na Europa? Na Ásia, especialmente na China, a arte é mais um objeto para ostentar. Quando vamos a uma exposição, às vezes vamos mais para tirar fotos do que propriamente para apreciar a galeria, para mostrar que temos bom gosto. É absurdo. No que toca à moda, Tóquio continua a apontar as coordenadas do futuro, principalmente entre os OG’s. Na Coreia do Sul também há muitos designers com boas ideias, e a China continua a evoluir rapidamente – muitos designers já trabalham para marcas grandes como a Yeezy. O que me parece, às vezes, é que algumas pessoas não conhecem a história, e que ignoram algumas das coisas mais fundamentais na moda. Por contraste, vou a uma galeria de Paris e vejo visitas de estudo, organizadas pelas escolas, que permitem aos alunos terem contacto e apreciar arte. Os jovens aqui ainda são capazes de passar tempo afastados das redes sociais, imersos em arte. Lamento dizê-lo assim, mas o entendimento que têm da arte é muito superior ao que vejo no mundo asiático. Por outro lado, a moda europeia tem uma cultura mais limitada do que o que conheço em Tóquio, às vezes assemelha-se quase a uma competição entre marcas pequenas e casas de luxo. A moda europeia também ainda é um pouco tradicional, mas as novas gerações estão a trazer coisas novas.

Já tiveste pessoas como J Balvin, Bad Bunny, A$AP Rocky e Virgil Abloh a usarem peças tuas e a comprarem a tua arte. Como é que essas ligações aconteceram? Honestamente, não há grande história: alguns são amigos ou amigos de amigos, outros simplesmente mandaram-me DM’s, acho que é a forma mais simples. Não há uma gap assim tão grande entre celebridades e designers comuns, é muito fácil comunicar.

O Bad Bunny até usou a tua máscara em quase todos os videoclips do YHLQMDLG, how cool is that? O Bad Bunny tem sido uma ajuda enorme, e aí tenho de agradecer ao meu amigo Stillz. Já trabalhamos juntos há muito tempo, e ele é o fotógrafo do Bad Bunny. Sem o Stillz talvez essa ligação não existisse.

E como foi colaborar com a Formy Studio? A colaboração foi planeada durante dois meses, e foi finalizada com o Domenico durante a Women’s Week em Setembro. Foi uma parceria que me permitiu descobrir mais possibilidades para os meus produtos, expandiu o meu mercado – e é a minha primeira collab propriamente dita. Houve alguns problemas logísticos, mas encontrámos uma solução perfeita e foi uma experiência memorável.


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Nós conhecemo-nos na PFW, onde tiveste uma loja pop up e uma exposição. Como é que surgiu essa oportunidade? Essa exposição foi-me proposta pelo meu amigo Olivier, em junho. Na altura, o meu trabalho ainda não era muito conhecido, ainda não tinha uma identidade suficientemente forte, e não tinha acesso ao mercado parisiense. Ele acreditou em mim, achou que eu tinha de mostrar o meu trabalho neste palco. É um mentor para mim: alugou o espaço e ajudou-me, sem ele não estaria aqui.

Olhando para o futuro, onde é que te vês daqui a cinco ou dez anos? Espero poder trabalhar mais e melhor, desenvolvendo a minha própria imagem, mas também me imagino facilmente a trabalhar para outras marcas. O que espero, acima de tudo, é poder manter-me fiel ao meu estilo.

Há algum tempo publicaste uma game case para a PS3 com referencia à Sicko do Ian Connor, podes dizer-nos mais sobre isso? Essa PS3 é para o Rex, um artista que colabora com a Sicko, e foi feita para assinalar a primeira exposição dele a solo em Tóquio. Foi planeada pelo próprio Murakami, então serviu de comemoração.

Quem são os newcomers a quem devemos prestar atenção? Olhem para a China, para os meus brothers que são tão jovens e tão criativos. O futuro passa por eles.

E que conselhos é que dás a jovens criadores? Não se preocupem se estão a imitar alguém, pelo menos quando começam. O que importa é não desistir – insistam, pensem, e tentem encontrar um estilo próprio ao longo do caminho. Não percam tempo com coisas inúteis, e quando encontrarem a vossa identidade, trabalhem nela o tempo inteiro. O que vale ouro vai sempre brilhar.

Quais são os teus objetivos para o futuro e o que é que nos podes contar? Espero poder expandir o meu trabalho nos mercados chineses e americanos. À medida que o meu nome ficar mais conhecido, também espero poder fazer mais exposições, pensando já no pós-pandemia. Para além disso, só para informar, vou ter mais obras minhas à venda!

 

 

 

 

 

 

 

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