“Se fosse tudo em linha recta, não tinha piada.”
A New Balance apresentou as novas chuteiras Furon V8 ‘Live Wire Pack’, ocasião para encontrarmos o mais recente recruta da marca: Fábio Silva, internacional português e avançado do Borussia Dortmund.
O outrora wonderkid do Porto tem hoje 23 anos. Passou por seis países desde que deixou a Invicta, sofreu com as expectativas, amadureceu e viveu a afirmação na época passada, em Espanha. Encontramo-lo de regresso ao Norte de Portugal, onde tem aquilo que mais importa: família, amigos, raízes. “Sempre que tenho tempo, volto para rever as pessoas da minha infância, visitar sítios que foram importantes, os clubes por onde passei em miúdo.”


“Às vezes, o meu pai vê-me a sair de casa e pergunta ‘vais mesmo assim vestido?’”
A gratidão por quem o rodeia atravessa a conversa. Trocou o Porto por Wolverhampton com tenros 18 anos e uma etiqueta de 40 milhões que lhe pesou nos ombros: “Se não tivesse tido uma estrutura à minha volta, não sei como teria lidado com essa pressão.” E quando reclama algum mérito para si, não parece orgulhar-se tanto das skills com a bola como da própria resiliência. As dores de crescimento foram sempre convertidas em oportunidades para se tornar melhor, para conhecer as próprias fraquezas e virtudes e trabalhar sobre elas. “Se tivesse sido uma trajetória em linha reta, também não tinha piada”.
De resto, insiste, é de carne e osso, com uma vida normal – uma pessoa como as outras. Talvez seja assim, mas o que motiva esta conversa é que o Fábio não é, pelo menos totalmente, um jogador como os outros. Começou a captar atenções pelos outfits mais ousados, e assume que gosta de vestir diferente. “Às vezes, o meu pai vê-me a sair de casa e pergunta ‘vais mesmo assim vestido?’”. Esse contraste com a geração do pai, também ele ex-futebolista, é revelador. O Fábio pertence a uma nova vaga que recusa a expectativa, ainda prevalente entre muitos adeptos, de que os jogadores só existem para treinar e jogar. De que ter outros interesses compromete a dedicação. “Esses comentários já não me afetam. Dou prioridade absoluta ao futebol, tenho toda a minha vida estruturada para ser o melhor profissional possível. Mas, se tenho tempo livre, não vou deixar de fazer o que gosto e o que me faz feliz.”

E ele gosta de moda. Para o dia a dia, move-se entre o streetwear e o sportswear, e menciona a Supreme e a New Balance. Na alta costura, aponta ao calçado de Rick Owens. Numa escolha mais under the radar, refere ainda as silhuetas da Our Legacy. Não tem jeito para o desenho (e por isso afasta, para já, alguma collab com assinatura própria), mas revela interesse pelo processo, pelo fabrico das peças e pelos materiais.
As referências também ajudam a traçar o retrato. Ronaldo é o ídolo dentro de campo, “como para quase todos os portugueses”, mas é Memphis Depay que destaca como exemplo de expressão individual para lá das quatro linhas. Fala-nos também em Rafael Leão como o colega de balneário com uma vibe e estética mais próximas da sua. Aproveitando a deixa, perguntamos-lhe se se imagina, à semelhança dos jogadores do Corinthians e do Milan, a explorar outras vias artísticas.


“A forma como jogas reflete a tua personalidade. Quando era miúdo, era uma pessoa muito impaciente, queria ser rápido em todas as ações. Hoje sou mais calmo e maduro, jogo com outra pausa, os anos dão-te isso.”
“Para cantar, acho que só no duche. Mas gostava de experimentar outras coisas. Tenho muita carreira pela frente, há muito a conquistar no futebol, mas quero encontrar projetos a que me possa agarrar no futuro”. Há uma fome de quem sabe tudo o que tem ainda para alcançar dentro de campo, mas que, ao mesmo tempo, reconhece no horizonte um infinito de possibilidades.

E, para o Fábio, os dois mundos caminham lado a lado. A moda é expressão, mas também competição: “Hoje em dia há fotos em todo o lado, até nas chegadas à Seleção. Toda a gente comenta os outfits e há uma competição saudável.” O futebol é competição, mas também expressão: “A forma como jogas reflete a tua personalidade. Quando era miúdo, era uma pessoa muito impaciente, queria ser rápido em todas as ações. Hoje sou mais calmo e maduro, jogo com outra pausa, os anos dão-te isso.” Todo esse arsenal de expressividade deve ser incentivado nos futebolistas, afirma, porque ser o melhor futebolista possível também passa por não ser apenas isso. Até porque tem bem presente “o maior medo de qualquer futebolista”: o vazio após o fim da carreira. “Um dia vou precisar de outras formas de me sentir realizado e quero começar a preparar esse caminho”.
Com a conversa a chegar ao fim, fizemos a ponte entre as duas paixões e pedimos-lhe um top 3 de kits que já vestiu em campo. “O alternativo do Dortmund desta época, cinzento com amarelo. O Wolverhampton teve também um equipamento de homenagem aos portugueses, numa altura em que éramos muitos no clube.” E, no topo do pódio, regressa mais uma vez a casa: “o equipamento com que joguei no FC Porto. Quando toca ao coração, é o meu clube, não há como não escolher.”
Terminamos onde começámos, e onde ele começou: nas raízes do Fábio, naquilo e naqueles que sempre lá estiveram, quando o resto era ainda uma incógnita. Fábio Silva tem 23 anos, joga num clube de topo europeu, saboreou o hype precoce e foi obrigado a reunir forças, a reerguer-se, a compreender a importância da luta. É disso que se orgulha. Essa trajetória que não foi reta aponta agora firmemente para o topo. Quais são as próximas ambições?
“Muita coisa. Quero ganhar títulos com o Dortmund. E, daqui a seis meses, quero estar nos Estados Unidos a jogar o Mundial pela Seleção.”
Entrevista: Ricardo Almeida
Fotografia: Diogo Lopes
Make Up & Hair: Catarina Albano
Fábio Silva vestido com New Balance

